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Childish Gambino – This Is America (Curiosidades, fatos e interpretações da obra)

O vídeo clipe do multifacetado Donald Glover como Childish Gambino causou um tremendo impacto na industria audovisual, mídia em geral e no publico por trazer cenas de violência extrema sem censura. E caso conheça pouco sobre Rap e muito menos sobre Donald o choque ao ver o clipe vai te deixar estupefato, se passar pelos quatro minutos e quatro de trilha atentamente mais de uma vez sairá surpreso porque a ideia por trás de “This Is America” é um dos focos de Donald.

Com uma trilha que reflete bem a cultura afro junto da modernidade “simples” trazida pelo Trap, Chilldish faz um manifesto audio visual que torna claro o quanto a sociedade se despreparou para muitas coisas, e uma delas é a verdade. Enquanto o primeiro plano te apresenta um rapper fazendo uma performance fora do comum, até mesmo temas foco nesse mesmo primeiro plano como racismo, assassinato e  genocídio, o segundo e terceiro plano do vídeo tratam de coisas como suicídio, manifesto e apropriação cultural de forma proposital.

O mais notável é que esse é um daqueles videoclipes que você não trata apenas como um videoclipe e sim um curta devido ao tanto de informações contidas, complexidade e estilo de fotografia, mas também é um trabalho que se beneficia dos vários tipos de expressões utilizadas, porque é bem difícil interpretar “This Is America” apenas pela musica, agora apenas com vídeo a obra se torna mais definida só que o conjunto é que torna todo esse conteúdo conciso.

A partir daqui recomendo que tenha visto o video para continuar a leitura, e caso ainda não tenha visto é só conferir aí embaixo e continuar a depois, até ressalto que é preciso ver uma vez e uma segunda vez prestando atenção só nas tomadas de fundo, mas uma visualização já te prepara para o texto abaixo.

O plano aberto com Childish no inicio do vídeo serve pra contextualizar que o que você vai ver aqui é diferente e igual a tudo o que você já viu, a diferença é que por ter sido doutrinado a se acomodar com alguns temas o choque e impacto de algumas cenas pode ser maior que o normal.

  • Os primeiros diálogos da trilha fazem contrapontos com o “SIM, SIM, VÁ EMBORA, VÁ EMBORA” entoado ao fundo, tendo em vista que os negros tem tornado a musica o meio mais comum de curtirem e estravazarem desde suas alegrias a decepções, vale lembrar que até um determinado período o pop tomava conta de todas as paradas nos Estados Unidos, o que recentemente foi abocanhado pelos rappers, isso tornou Rap o gênero mais popular do país.
  • Aqui vou usar uma das referências citadas e excluídas do twiiter pessoal de Vicky Hope , mas que estão disponíveis no pastebin. A careta que Gambino faz é a mesma do personagem Uncle Ruckus de “The Bondoocks” o personagem em questão é um negro que odeia negros – aqui acaba a referência de Vicky e entra minha conclusão – e isso seria apenas uma semelhança caso não tivesse o discorrer que tem, que é o assassinato de um negro.
  • O primeiro evento em primeiro plano que é este assassinato mostra como armas de fogo são enaltecidas, como muitas mortes simplesmente são encobertas e como as crianças tem mais acesso a armas de fogo em território americano.
  • A arma é tratada como instrumento sagrado dentro do videoclipe e não é apenas uma cena, é assim que os americanos tratam o porte de arma.

Uma das coisas que é preciso notar em uma critica como essa é que nós temos a morte de um negro por outro negro, essa é uma das mensagens fortes que é bem difícil de se engolir dentro do vídeo clipe, embora das duas situações impactantes do primeiro plano possam ser atribuídas as duas atrocidades cometidas por brancos, vale muito ressaltar que a forma como é mostrada enaltece que até mesmo os negros como a referência de “The Bondoocks” acabam se atracando e deixando o papel fundamental da própria cultura a esmo.

Seguindo a métrica anterior algumas das coisas perceptíveis dentro deste videoclipe é a sociedade, com “espectadores” tendo que reaprender a lidar com a realidade e como a sociedade chega em um ponto em que precisa mostrar para o seu próprio povo como sua cultura é, ou como algo pertence a sua cultura, no caso temos o estilo de dança usado por Gambino em todo o vídeo. Sem contar os estereótipos apresentados de forma simples “Se houve um assassinato o Negro é o assassino“, “Se um negro foi assassinado é porque ele era o bandido“.

  • Com esses eventos a trilha sonora se transforma em trap beat de forma imperceptível.

Ir pelo caminho do trap seria apenas algo convencional caso não fosse o histórico que esse estilo musical carrega consigo, os rappers que fazem trap normalmente o fazem por ter uma abordagem mais explicita e mais crua que o rap convencional, o uso de temas mais pesados de formas mais diretas sem aliviar o tom da mensagem, embora “This Is America” faça essa abordagem através do visual e não da lirica.

  • Quando o trap começa de fato as frases de Gambino mostram que  algumas coisas a cultura americana acaba implantando em você, como o comportamento violento e o ar de “tanto faz como fez” mesmo com um assassinato em primeiro plano.

Após o lançamento de “This Is America” muitos veículos de informação estão tentando interpretar e descobrir todos os significados implícitos na obra, o fato é que a linguagem criada nesse conteúdo vai te fazer exercitar a interpretação juntando aquilo que você sabe sobre uma determinada cultura, aquilo que você sabe sobre atualidade, aquilo que você acha que sabe sobre a atualidade e o ponto de vista de acordo com sua experiência de vida, e com tudo isso alguns fatores estão salvos de multi interpretação como são os casos de referencias diretas, mas no que tange interpretação me sinto na obrigação de trazer uma coisa pra cá porque do mesmo jeito que é lindo dissecar a obra é preciso ter cuidado com o que se usa como referencia e pra isso vou pegar emprestado uma nota do TMZ.com com o cantor Calvin pra um fato que tem sido disseminado pelas redes sociais e não passam de uma interpretação falsa, sem contar que isso pode causar grandes problemas como notarão.

Nota do TMZ com Calvin.

The guy in the opening scene of Childish Gambino‘s “This Is America” video is NOT Trayvon Martin‘s dad, Tracy … contrary to a flurry of social media buzz.

The guy in question is actor/musician Calvin the Second, who hopes Tracy doesn’t see the video because he fears it will traumatize him.

Calvin told us he started getting calls this weekend from people who gave him a heads-up … he was being confused for Tracy. Calvin was shocked, because he and Tracy don’t look alike … apart from the beard. He passed it off as “fake news,” until he started thinking about the impact it might have on Trayvon’s dad.

Calvin says he felt bad for Tracy since Gambino’s video is filled with gun violence. Trayvon was only 17 when he was gunned down in Florida in 2012, and his killer was later found not guilty.

For the record … Calvin says he wasn’t hired to be a Tracy look-alike, and there’s another bearded guy with whom he’s often confused. You can probably guess who. – Aqui acaba a tomada da TMZ e Calvin, você pode conferir mais do TMZ em TMZ.com

Pra que entenda com mais facilidade essa questão, Calvin disse que ele não foi contratado para interpretar Tracy o pai de Trayvon, jovem de 17 anos assassinado na florida em 2012, e que a partir do momento que ele viu como esse vídeo repercutiria ele estava preocupado com essa ligação que as pessoas criaram e como Tracy reagiria vendo esse vídeo, mesmo salientando que a semelhança entre ambos é a barba Calvin se mostrou realmente preocupado com como o pai do jovem encararia esse vídeo ressaltando o alto teor de violência contido nele como um todo. – ThMc, Rua5.com

  • A presença do ator e musico Calvin – The Second sentado na cadeira e tomando posse do violão referencia o Blues, uma das primeiras tradições negras a se tornar sucesso nos Estados Unidos.
  • Além do já citado Uncle Ruckus, não só as caretas como a performance de Gambino funcionam como referência a Jim Crown um personagem que deu origem aos Menestréis, criado por Thomas D. Rice um comediante Nova Iorquino. Jim era um personagem todo pintado de negro que imitava negros de maneira cômica e estereotipada para o publico branco e racista.
  • Após a cena de Calvin, temos um corte sutil que apresenta um homem com capuz que é assassinado como já citado anteriormente, acontece que uma das interpretações dadas a esta cena é algo mais poético, porém valido como a tradição de Jim Crown como sendo algo que mesmo criado para estereotipar consegue se sobressair ao valor de tradição real, como é caso de sucesso do Blues.

Acontecimentos em segundo plano como os vistos em 1;34 de vídeo permitem interpretações como:

  • Os negros se tornaram entre qualquer forma de expressão “entretenimento”, é confortável para a sociedade americana que eles sejam encarados dessa forma, seja com musicas explicitas ou formas de protestos concisos, são peças necessárias dentro do conservadorismo midiático e assim são encarados como “revolucionários” de uma tradição com a finalidade de entreter e nada mais que isso.
  • A musica e dança como formas de resistência e sobrevivência ao racismo tem como base a ideia de que pra sociedade o simples fato dos negros serem felizes como são os torna revolucionários, já que eles estão indo totalmente contra um mundo que tem como base cultural a inibição de seus costumes.
  • Tudo o que vimos nas outras interpretações podem ser usadas e motivadas com a finalidade de educar e centralizar a visão do povo, de forma que eles sofram uma espécie de alienação e acabem desatualizados ou perdendo o foco dos problemas atuais, ou que realmente interessam é como você dar um prêmio de consolação com a finalidade de evitar mal entendido, aqui posso encaixar de forma simples o #GrammySoWhite de 2017 que enalteceu como a industria monopoliza a musica com base no entretenimento e tenta desvalidar de qualquer forma um possível manifesto quando ele pode se tornar “real” e venha de um negro.

Nas cenas onde a dança contém um grupo de jovens no plano central temos:

  • Passos clássicos do Rap;
  • Passos estilizados do Trap;
  • Passos da dança Gwara-Gwara, um estilo de dança Sul-Africano.
  • Os jovens que acompanham Gambino na dança utilizam uniformes relacionados aos dos estudantes vitimas no massacre de Soweto, na Africa do Sul, o massacre em questão foi uma represália contra negros que protestavam em relação a mudança da língua que foi imposta na época, essa imposição cobria a tradição negra por uma linguagem baseada no holandês.

Cada ponto do videoclipe vai te levar de encontro a uma particularidade da cultura negra e uma das mais visíveis e de fácil reconhecimento é a referência com o assassinato na igreja de Charleston em 2015, na ocasião um homem branco invadiu matou nove integrantes da igreja que pertence a comunidade negra. E aproveitando o gancho dessa interpretação do trágico evento de Charleston é possível notar que temos uma repetição proposital de valores, como a entrega da arma que é cuidadosamente levada por um jovem com todo zelo sob um pano vermelho enquanto os cadáveres são removidos de qualquer jeito, é clara a adoração por arma adotada nos Estados Unidos e o desprezo com a vida, em especifico dos negros e a doutrinação dessa inversão de valores nos jovens.

Se associar o fato das mortes por arma de fogo no clipe serem de negros e remoção dos corpos com a finalidade de remover qualquer vestigio, até mesmo no simples uso de um pano no recolhimento da arma podemos remeter a um fator bem simples além do desprezo já citado, se lembrarmos bem, mortes como de Pac e Biggie foram colocadas no esquecimento da justiça americana, como esses existem muitos casos que sequer tiveram conclusões ou simplesmente foram arquivados de maneira sorrateira.

Quando em um determinado momento vemos um cavalo branco carregando um ser todo vestido de preto uma das coisas que me veio a mente é:

“Porque a sua casa se inclina para a morte, e as suas veredas para os mortos. – Provérbios 2-18”

Toda a roda de interpretação acaba levando a esse caminho e faz jus a essa “representação” de morte e como as contextualizações se contrapõe, da a impressão que Childish está avisando que tudo está se encaminhando para um derradeiro fim, mas não é apenas o fim da vida de pessoas como também o da cultura e das tradições que elas ajudaram a criar durante sua existência, com isso perda não é algo particular e sim compartilhado por toda uma nação que tinha naquilo algum tipo de crença ou identidade.

Ainda no que tange o evangelismo:

“E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra.” – Apocalipse 6-8

Esse trecho bíblico é bem claro por si só, a unica ressalva é que a tradução em português contém a errata de dar o cavalo como “amarelo” em algumas versões traduzidas da bíblia para o português brasileiro.

Assim como as criticas por interpretação sobre como a musica e dança podem ser apenas artifícios que desfocam os jovens dos acontecimentos atuais e importantes, outro momento mostra que a militância virtual realizada através de redes sociais tem sido cada vez maior enquanto uma resposta real sequer existe, a cena responsável por essa interpretação mostra crianças encapuzadas com celulares em mãos. Além desta interpretação podemos adicionar mais outra seguida de referência direta após a frase “This a celly, this a tool” dizendo em tradução livre que um celular é uma ferramenta, só que isso também nos leva a uma afirmação porque “celly” e “tool” também são gírias, e nisso tool realmente quer dizer arma, então pode ser apenas uma forma de dizer que na mão das pessoas certas o telefone realmente é uma arma, mas não como as pessoas pensam o fato é que isso nos leva ao ocorrido tendo Stephon Clark, um jovem de 22 anos assassinado após ter o celular confundido com arma de fogo em 22 de Março de 2018.

Temos também a cena de suicídio na sacada que levam a muitas interpretações como o descaso das pessoas com situações reais, o ato de filmar tragédias e disseminar isso em rede social ao invés de impedir, algo que até levou o Youtube a mudar completamente suas politicas dentro da plataforma. Na cena final do clipe com SZA, Calvin e Gambino seguido da frase – Get your money, black man – fica entendido que nem todo dinheiro pode reparar os danos causados pelo racismo e que o orgulho negro deve ser mantido acima de tudo, mas também fica bem claro pela entonação que os negros devem continuar trilhando seu caminho e alcançando suas coisas alçando suas conquistas naquilo que melhor representa sua cultura o que no caso é trazido com o ícone do blues, o status da musica moderna com cantora SZA, a liberdade criativa com Gambino e os carros antigos como uma representação de algo que mantém seu valor mesmo com o passar do tempo, algo que toda a cultura deveria carregar consigo.

Pra finalizar esse grande apanhado que essa obra rendeu e ainda vai render, é indiscutível e impossível não notar como as batidas e tambores fazem alusão a cultura africana, como em algumas falas de Gambino se nota a pronuncia do inglês com sotaque africano, como alguns passos e trejeitos são sátiras ao que muitos negros vem fazendo no espaço midiático que possuem, e a diferença maior entre a perspectiva que Donal Glover criou como Childish Gambino em relação a qualquer outra coisa é que ele não precisa de muitas frases ou nomes, só precisa ter em seu auxilio o audiovisual algo que o Diretor Hiro Murai e Produtores Jason Cole of Doomsday com Ibra Ake e Fam Rothstein do Wolf + Rothstein lhe proporcionaram com exito e liberdade criativa, e assim tivemos o que pode ser considerado o melhor vídeo clipe de Rap de todos os tempos devido a riqueza da obra como um todo.


Assim como eu, acho que “This Is America” surpreendeu muitos fãs e rappers mais assíduos fazendo com que ouvissem a trilha mais de uma vez, prestassem atenção em detalhes mais escondidos e interpretassem muita coisa a sua maneira, a conclusão final é que Gambino nos deu um xeque mate e agora resta tomar uma decisão ou continuar nesse comodismo que foi se criando durante os anos.
Você pode me seguir no spotify pelo widget abaixo e conferir todas as minhas trilhas por lá desde 2003 até 2017.

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