Aleatório Análise

Análise da faixa Território Leste do Consciência Humana

Sejam bem vindos ao Rua 5, hoje eu ThMc venho lhes trazer uma espécie de análise de trilha e pra iniciar escolhi a “Território Leste” do Consciência Humana lançada no album “Agonia do Morro” em 2003. Essa trilha em especifico aborda um tema corriqueiro, mas com pontos interessantes e referências muito boas, sem contar a colaboração sonora que pra mim na época e até hoje é uma grata surpresa, sem demora aquele salve pra você que esta nessa leitura e vamos lá.

Primeiro ponto antes de continuar é de extrema importância que já tenha ouvido a trilha, caso não tenha ouvido não se preocupe que vou deixar ela disponível abaixo então ouça antes de continuar a leitura.

As morte de Sabotage, Pato N’Água, Daniel DuRap e Gilmar Alvos da lei citadas em Território Leste.

Introdução


Com participação de Beth Carvalho, Quinteto em Branco e Preto, lançada no álbum “Agonia do Morro” em 2003 a trilha “Território leste” do grupo Consciência Humana é um relato seguido de menção honrosa a alguns nomes do Rap Nacional e Beth Carvalho enaltece o nosso maior Sambista de Rua, Sabotage, mas não só isso a madrinha do samba canta como referência a partida de Sabotage com a de Pato N’água um dos maiores sambistas de todos os tempos, assassinado em 1969.

CONTEXTO DA LETRA


Beth Carvalho da o tom em um dramático e suave “Silêncio” pra que WGi traga um relato acontecido na zona leste em plena manhã. O fato é que nomes não são citados e do nada há uma interrupção interpretativa dirigida por DJ Adriano que serve como ponta pra WGi retornar e enfatizar que apesar de parecer um filme a cena discorrida nos versos é a pura realidade.

O refrão entoado por Beth e acompanhado pelo Quinteto em Branco e Preto é na verdade uma canção de 1980, interpretada e composta por Geraldo Filmes em homenagem ao sambista Pato N’água assassinado em 1969, abaixo você pode ouvir a versão interpretada por Beth Carvalho.

“Silêncio no Bexiga” de Geraldo Filmes homenageia um célebre diretor de bateria da Vai-Vai, exímio capoeirista e chefe da torcida organizada do Corinthians, Walter Gomes de Oliveira mais conhecido Pato Nágua, assassinado na cidade de Susano em 69.

Após o refrão da madrinha do samba e menção a um dos maiores sambistas de rua, Sabotage, Preto Aplick com seus versos relata o autoritarismo da policia e a pratica de violência gratuita independente da faixa de idade dos moradores de vilas pobres da Zona Leste. Ainda ressalta que a ausência de provas do acontecido normalmente é obra de pessoas com acesso livre dentro de setores públicos, assim o acesso permite que os fatos sejam desligados e que a ação de assassinato realizada anteriormente possa ser vista como uma ação não condenável, ou mesmo esquecida pelos anais da justiça.

Antes que a faixa se finalize uma moção de salves é dada a vários nomes conhecidos localmente e nacionalmente, é fato que a comoção toma conta diante a tantas perdas e se levar em conta como Preto Aplick se expressa é possível ver que a base da trilha não foi apenas a de relatar, mas sim de desabafar sobre muitas injustiças e dedicar um momento a sua mãe e sua sobrinha.

Referências, citações e curiosidades


Nas menções conhecidas temos Gilmar do grupo Alvos da Lei assassinado em 2002 em Alagoas, o rapper foi morto aos 27 anos de idade e a causa até hoje é desconhecida e a trilha entoada por Alvos da lei “Us herói nunca morrem” é uma homenagem celebre a Gilmar e tantos outros que foram além do esperado pelo povo pobre. Já sobre Daniel do Rap não encontra-se absolutamente nada em relação ao ocorrido, apenas o que sabemos é que o fato aconteceu antes de 2003, já que o caso mais recente citado foi o de Sabotage que aconteceu em  24 de Janeiro de 2003 e o relato virou caso nacional, o condenado foi sentenciado a 14 anos de prisão em 13 de Julho de 2010.

Walter Gomes de Oliveira, o Pato N’água é uma das fundações do Samba brasileiro, do Carnaval e da escola Vai Vai, a trilha “Território Leste” inicia com o que Pato gostava de usar como denominação, o apito, ele se intitulava de “O mestre do apito”.

Em uma tarde de 1969 Pato havia tirado o dia pra si e reservou um taxista para o dia todo, o taxista suspeitando o fato de Pato N’água ser negro acionou a policia, o problema é que essa era a época da Ditadura onde uma força conhecida como “Esquadrão da Morte” foi instituído por vários estados da federação, essa força exercia a pena de morte sem julgamento prévio. Embora rumorizados por escritos já que não existem documentos da época comprovando cada ação do grupo citado, as únicas evidências são que o corpo de Pato foi encontrado boiando na lagoa de Suzano crivado de balas em um final de tarde de 1969.

Conclusão


As letras de Rap são abarrotadas de referências ou palavras que ao serem pronunciadas parecem uma coisa e na verdade são outras, tudo isso é devido a forma de falar, regionalismo e particularidades do vocabulário informal criado em cada area, e apesar de tudo isso o que mais encontrei em letras escritas da Território Leste na internet foram palavras que não tem nada a ver com a citada pela Beth Carvalho no trecho:

O apito de Pato N’Água emudeceu.

Encontrei coisas como BAGONAGO, CABONAGO e apesar de ter uma expressão um tanto presa no trecho é possível entender “PATONAGO” e como destacado acima é “PATO N’ÁGUA”, são situações que acontecem. Mas é inevitável que o entendimento ambíguo de uma palavra nos afasta totalmente do real sentido, significado ou referência citada e é essa a ideia destas análises, é citarmos alguns pontos específicos, referencias e pegar alguma palavra que não tenha ficado clara e esmiuçar o que existe em torno dela.

Território Leste acaba trazendo um Consciência Humana mais direto do que anteriormente e apontando situações de complicação real envolvendo autoritarismo, manipulação de provas e até uma espécie indireta de ocultação de cadáver desligando a vitima de todas as ações que levaram a resultante, olhando superficialmente é possível que fiquemos como a primeira interrupção narrativa, comparando o contexto com filme mas quem convive com determinadas situações sabe como esse tipo de coisa tem se tornado muito mais rotineiro do que já havia sido na década de 90.

A parceria entre CH, HC, Quintento em Branco e Preto e Beth Carvalho proporcionou uma trilha excepcionalmente completa indo do Samba até o Rap com uma produção robusta, os vocais de WGi e Preto Aplick mantém a pegada de vozes dobradas que se tornou o padrão do Consciência Humana, e Beth Carvalho ficou livre pra entoar com suavidade os versos de “Silêncio no Bixiga”.

No geral a faixa é uma das que você em primeira audição vai sentir a diferença com relação ao resto do álbum, mas é preciso atenção pra pegar todos os detalhes e pra não deixar isso mais longo eu fico por aqui e espero que tenham curtido esse esquema, se tiverem sugestões de trilha pra fazer algo parecido é só deixar nos comentários, ou enviar pelo email thmc@rua5.com.

Consciência Humana é um dos grupos clássicos que ouço com frequência dada a forma como a trilha como um todo é bem trabalhada, quem não se lembra de “LEMBRANÇAS” né? HEY WGI EU ESTOU COM SAUDADES DO MEU MANO, EM UMA OUTRA NOITE DESSAS ELE APARECEU NO MEU SONHO… – ThMc

 

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